Muito mais além

 

 

Somente os homens de sorte são capazes de, numa noite clara,  encontrar um ponto a partir do qual seja possível enxergar o céu com clareza de detalhes. Não aquele pretume absoluto, mas o céu imenso, intenso, farto de estrelas. E mesmo com todo ele à frente, completo, há quem acredite que o céu tem fim, que pára numa parede, fica intransponível num limite sólido o suficiente para impedir que alguém dali passe. Mentira. A esses — os céticos — posso afirmar com certa segurança: o céu não tem limite. […] A evidência que comprova tal afirmação não está no que se diz por aí cientificamente. Muito pelo contrário: ela me apareceu num restaurante, no decorrer de uma conversa incrível. E o mais curioso: num restaurante sem vista para o céu.

Desde muito cedo, coitados, somos levados a acreditar que tudo tem limite: aprendemos na escola que o planeta nonde vivemos é cortado por trópicos imaginários e os países que o compõe, limitados por fronteiras também imaginárias. À medida que crescemos, somos moldados à luz das normas e dos diferentes costumes culturais. Respeitamos regras na família, criamos relações ciumentas do tipo isso-pode, isso-não-pode e ainda vivemos sob a égide dos alienantes códigos de conduta no trabalho. Em tudo há limite, por todos os lados: do crédito concedido pelos bancos às possibilidades de recordes no esporte olimpico; da capacidade produtiva à nossa mais vã paciência. [..] E mesmo quando nos estimulam a superar os limites, é preciso considerá-los para que haja a tal superação. É como se o mundo não funcionasse sem os limites.

Na prática, porém, não é bem assim: o mundo vive muito bem sem muitos deles, até porque todo limite tem seu contraponto desmoralizante. Para alguns, por exemplo, manter relações com o amor antigo é um fator limitador para que se conquiste um novo; para outros, contudo, abrir o coração ao novo é uma das formas de se desvencilhar do antigo. Mesmo a morte, vista como o mais tenebroso ponto final, pode ser encarada como limite da vida por muitos ou como ponto de partida de um novo ciclo por outros. Nas primeiras percepções, o limite; nas segundas, a impulsão. […] Em suma, limitar é ação mental.

Entendi, por fim, que muitos de nossos limites são frutos de crenças infundadas, ou seja, são limites imaginários. No fundo, nem tão fundo assim, nunca existiu um limite para o encontro de um novo amor, novas amizades, novas culturas e novos assuntos. Exceto pela crença infundada de que seguir em frente é, por si, um limite, nada nos impede de seguir em frente, viver novas experiências e, ao fim, rir do passado, seja ele bom ou ruim. […] Ontem, lá no restaurante, fui homem de sorte. Conectei-me a um ponto a partir do qual foi possível ver tudo de um modo diferente, sob outra ótica. Quebrou-se o limite. Foi como olhar para o céu e, por sorte, deparar-me com o imenso, o intenso, com a fartura de estrelas. Sem limite, sem fim. Tudo de novo.

Fui muito mais além.

A fábrica de giz

 

 

Cobrindo a rua sem saída, enterrados lado a lado, paralelepípedos. Decerto a aplicação de asfalto ali não se justificava pelo baixo movimento, decisão que perdura até hoje. Era a ruinha, um campo improvisado de futebol — e também das batalhas de pega-pega, esconde-esconde, etc. — no coração do bairro onde cresci. No chão, contávamos quatro pedregulhos ou pés, que enfileirados distanciavam um chinelo de outro, a medida do gol. Pela justiça, preferíamos os paralelepípedos aos pés, estes nem todos do mesmo tamanho. Bastavam, portanto, quatro chinelos, dois times de moleques e uma bola velha; quando muito, uma ou outra garota completavam a brincadeira. Por fim, por inteiros muitos dias dos derradeiros 80s e início dos 90, formávamos um bando de crianças pernas-de-pau — parece-me o coletivo mais justo — a gritar, cada qual na sua posição, atacante, goleador ou não; toda uma infância de bate-bola saudável e amizade.

Onde a ruinha não tinha fim, havia uma espécie de rotatória — um círculo de pedra no qual motoristas perdidos podiam manobrar para o retorno à avenida principal — e um muro bem alto que separava o campo de uma fábrica de giz praticamente desativada. Para lá, por sobre o tal muro, voavam as bolas dos que erravam um chute mais forte, ou pior, dos que as embicavam sem dó por pura falta de talento. E para lá não voaram poucas, que eram prontamente substituídas, ao menos até que um de nossos pais nos comprassem outra de capotão, por bolas malfeitas de papel, por outra brincadeira qualquer ou, principalmente quando os ponteiros beiravam as seis do fim da tarde, por um simples tchau, vou entrar, logo minha mãe me chama. Os anos se passavam e para lá, por sobre o muro, continuavam a voar as bolas que lá ficavam porque, à época já desativada, a fábrica de giz nem seguranças noturnos tinha mais, sequer os cães bravos típicos das placas de alerta. Lá, às escuras, as bolas de capotão e papel pereciam. […] Então, sem que eu pudesse conhecer algum trabalhador ou empresário dali, cresci. Ao longo de toda a minha adolescência havia um estigma de que a tal fábrica era fantasma. E bem que parecia. Foi somente quando eu já beirava os 30 que ela desapareceu definitivamente. A fábrica de giz tinha sido, enfim, comprada por uma construtora e seria varrida pelos braços de aço dos tratores. Saíam os gizes, entravam os prédios. Era o fim da esperança de resgatar ao menos uma de nossas bolas perdidas. Mais uma vez, como para sempre acontecerá, a história se alterava.

Há pouco, perplexo, passei a pé em frente ao local onde jaz a saudosa fábrica de giz. Enfincados no local já estão sete ou oito prédios residenciais onde morarão, em poucos meses, milhares de pessoas. Ali — afinal, em nossos tempos poucos investiriam num produto tão obsoleto —, nunca mais haverá uma fábrica de giz. Também, exceto em meus devaneios, não voltarei a ser criança. Porque, via de regra, as coisas mudam. Num dia, rua e futebol; noutro, mais adiante, trabalho e internet. Num dia, pais jovens e enérgicos; noutro, os mesmos, mas com cabelos brancos e carentes da ajuda dos filhos. Num dia, uma relação aparentemente eterna; noutro, outra relação ainda melhor para substituir a anterior. Num dia, aqui; noutro, como num lapso, a morte e a estadia não mais por aqui, mas acolá. […] Enfim, é preciso aceitar mudanças porque, via de regra, mudam a época, a cor das fotos, as pessoas ao redor, os amigos, o trabalho, a rotina, a elasticidade da pele, o jeito de pensar e agir, a configuração dos móveis ou a própria casa; mudam as cidades, as pessoas, as formas de se entreter, a comunicação, as brincadeiras, as crianças, muda a vida. Muda tudo, tudo muda, todo o tempo. […] Num dia, giz; noutro, um tipo de caneta com tinta apagável.

Apaguemos a lousa. Há sempre novos conteúdos.

Crise do entusiasmo

 

 

É como se a Terra, de uma hora para outra, tivesse se transformado no paraíso (?) — o próprio. De repente, de supetão, de bate-pronto, dezenas de caminhões passaram a descarregar, segundo a segundo, toneladas de mensagens de otimismo nas redes sociais, nos livros, na TV, nos discursos, n’todo lugar. São milhares e milhares que se dizem absolutamente crentes no poder divino, límpidas e leves como a água Bonafont. Uma filosofia do sabe-nada, dos versos e versões paraguayos de Drummond e Lispector. É um tal de superar dificuldades, do amor sobre todas as coisas, o amor sem falhas, da valorização da beleza interior, dos sorrisos-Colgate em ambientes perfeitos, da aclamação da leitura e da cultura, da fidelidade, do ser-diferente; um tal de defender a igualdade racial, proteger o meio ambiente e sustentá-lo como produto-fim da criação divina. Um arco-íris do existir que, ao invés de paraíso, mais se configura como uma gruta ou uma iguaria fétida coberta por um apanhado generoso de baboseiras, falsidades à toa e uma cereja paraguaya — daquelas que mais se parecem com uma gelatina — no topo.

A etimologia da palavra nos remete a um estado otimista do espírito: entusiasmo vem do grego e significa, literalmente, em Deus. Aqui, neste feio mundinho, vivemos a sua crise — a crise do entusiasmo —, uma resultante natural da característica mais visível em muitos dos seres que por aqui caminham: a incoerência. É que sob a máscara do spammer, o tal a nos enviar ininterruptamente toneladas de mensagens de otimismo, geralmente está uma pessoa incoerente e que não aplica em vida as palavras tão compartilhadas nos faces da vida. Não é raro identificar, por exemplo, um rancoroso — do tipo que não perdoa e carrega sentimentos de ódio por longos anos — apregoando o perdão e os votos de paz e amor eterno nas relações. Vejo uma ali aclamando a fidelidade, danadinha, ao mesmo tempo em que aguarda a viagem de negócios do marido para pular a cerca. Acolá, um interesseiro de primeira categoria envia mensagens em favor do verde, da Terra-de-meu-Deus, mas nem tanto; manda-nos, na verdade, muito mais em favor de que digitemos seu número e apertemos o botão verde, bem verdinho, o do confirma, à época das eleições. Defronte ao computador, uma senhorita envia aos nascidos no dia — porque, convenhamos, a ferramenta facilita — uma lista enorme de Parabéns! na base do control C + control V, muito mais com o intuito de manter a boa imagem do que para realmente parabenizá-los. Por aqui também não é raro identificar profissionais frustrados ou indivíduos depressivos que nas redes, nas fotos, nos discursos, perfumam-se como se em Beverly Hills ou em Chicago. Falso testemunho. Dizem, recomenda-se que nessas horas haja uma conversa profunda com Deus. Pois ao invés de fazê-lo, de fato e em silêncio, que tal um “Obrigado, Senhor!” em troca de alguns cliques-curtir? Acontece. E acontece muito mais.

Se por aqui tudo há, todo esse otimismo, por que continuamos em crise? Por que o tal otimismo não nos leva, de fato, às relações e aos atos de amor puro? Por que, sendo o mundo assim tão divino e com pessoas tão aparentemente belas, os relacionamentos não perduram — ou pior, quando perduram, seguem às trancas e barrancas? Por que muitos dentre os que falsamente creem — aqui classificados como spammers — comportam-se de modo tão diferente na vida real? Por que a beleza das fotos não reflete o que vemos no comportamento do dia-a-dia? Por que o mundo, mesmo o tão ilusoriamente belo, aparenta estar anos-luz distante dos ditames de Deus? Por que, sendo assim, o tal egoísmo ainda é tão presente? […] Onde estão os sorrisos-Colgate de verdade? Onde estão os ambientes perfeitos das fotos e das mensagens no Facebook? Onde estão os belos-por-dentro que tão valorizados são? Onde está o nó que desata o problema do racismo e da sustentabilidade no mundo? Enfim, onde estão os benditos livros com páginas encardidas de tanta leitura? Onde?

No Facebook.

There Must Be An Angel

 

 

Não foi exatamente como entoava a já antiga e afeminada música do Eurythmics, mas acerca. Lá na essência, cá com meus botões, tudo bastante parecido. Foi como, diz a própria música, estar num quarto vazio e, de supetão, minutos antes de se lançar num oco interior, deparar-se por sorte — ou por obra divina, creio — com uma orquestra de anjos adentrando a porta a remexer, todos eles, o já quase enferrujado lado emocional dos lá trancafiados. Como se a tal voadeira de anjos nos servisse única e exclusivamente para reativar as emoções, os sentimentos, ao ponto de — quem diria? — enciumar até o duro lado racional. […] Nesta noite, certamente não por acaso, no meu quarto vazio adentrou somente um anjo ao invés de uma multidão deles. Uma, no feminino, mas já bastante suficiente. Dúbia, morena, beirando os 30, transparente na expressão e sólida no que dizia, sentou-se à minha frente sem asas, que, por aqui, nesse mundinho, foram substituídas, embora a substituta não a fizesse voar, por uma jaquetinha de couro indefectível, moderninha, com a cara de ser cara. Já diziam pelos 90, ♪ nesse mundinho fechado ela é incrível ♫. Era simples por um lado, azeda e alcoolicamente sonolenta pr’outro; tinha um lado zen típico dos anjos ao mesmo tempo em que lançava, sem titubear, olhares-43 típicos dos homens. E ela, digo a anja, era encantadora não somente pelo sorriso, pelo perfume ou pela beleza — desde a época da adolescência características nela peculiares —, mas sobretudo pela mensagem divina que trazia, típica dos anjos. Ali, a falar, recitou, como se não soubesse de onde a tal vinha, uma mensagem mágica e bem mais completa que a deixada pela música do Eurythmics. Foi mágica tamanha que, de tão bem feita, classificou-se como difícil-de-se-decifrar, difícil-de-se-digerir; foi tão completa que, como toda boa mensagem, preencheu um vazio. […] Afinal, imagino que sejam essas mesmas as cousas dos anjos: aparecem de repente, entram sem bater, abrem-nos o baú nonde se guardam as essências da vida, enfiam-nos baú abaixo uma mensagem divina, fecham o bendito e o legado fica lá, a sete-chaves. Acabam mexendo com nossa vida sem que percebamos, sem que eles mesmos percebam; de repente porque são bem pagos para isso ou porque Ele — e não me parece interessante desobedecê-lo! — simplesmente quis assim. […] Enfim, a anja que hoje sentou à minha frente não se encontra em qualquer lugar. É rara, encanta, faz as horas passarem às pressas. Fantasia-se de fisioterapeuta só para enganar, disso sei bem. Porque no fundo — nem tão fundo assim — ela senta e diz o que diz, d’um jeito que só ela sabe, porque a mensagem marca a vida, altera-nos quase que instantaneamente: em suma, peça paz a Deus e agradeça-O“. Hoje, além dos pedidos que me são necessários e as mensagens de gratidão que Lho devo, agradecerei também ao sopro que trouxe anjos ao meu quarto vazio. Divino sopro. Agradecerei em especial à ventania que me trouxe a tal anja azeda e sua jaquetinha de couro preto indefectível.

Must be talking to an angel

Caverna do Dragão

 

 

Embora, por pura preguiça, eu não consiga comprovar cientificamente, já não tenho dúvidas de que nossa mente flutua; não no ar, mas em dimensões, várias delas. Estou certo, inclusive, de que tais dimensões  são criadas e mantidas a partir da organização das centenas de percepções que temos sobre as coisas da vida — da crença em Deus, por exemplo, ao medo da mariposa negra, da percepção sobre o que é felicidade à decisão de dormir cedo ou tarde numa noite qualquer. Nosso corpo, portanto, é somente o reflexo das experiências que vivenciamos nas tais dimensões; somente reage às decisões que sozinhos tomamos, às percepções que temos guardadas nas diversas repartições encaixotadas por detrás dos olhos.

Hoje, segunda-feira, estou doente. Ontem estive, anteontem também, tanto ao ponto de não conseguir dormir e sobreviver às custas de comprimidos amargos, um punhado deles. Uma gripe forte, daquelas que, justamente por serem fortes, não se revelam com tanta frequência. Reflexo. É que, digo, a dimensão na qual vivo atualmente não é das mais brandas, e o meu corpo, provavelmente indisposto, talvez esteja simplesmente refletindo tal indisposição. […] Hoje, vivo numa dimensão em que a plena felicidade é tão utópica que beira o impossível. Indisposição. Nela, as pessoas são iguais, as tribos são iguais, os atos são iguais e o povo vive em crise; uma crise de identidade, de otimismo e benevolência fakes. Não que o ser-igual seja ruim, muito menos as terras em crise. É que, no fim das contas, hoje tudo é meio falso, fake. É um flood de mensagens otimistas sobre o amor, sobre o futuro, sobre a superação, o transpor-obstáculos e o arco-íris do existir. É o prostituir o Santo Nome em vão, ou pior, em imagens no Facebook. É o protocolo exagerado na relação entre pessoas e que as tornam supérfluas o suficiente para levar à discussão destrutiva quaisquer afirmações além-protocolo. É o pobre que se endivida para parecer mais rico; é o rico que desdenha ou se submete a situações ridículas e de extrema humildade para se parecer com o ainda mais rico ou bonito, que seja. São os óculos de Herchcovitch na face de quem não o teria; a foto com o cabelo bonito porque, depois do banho ou da repentina chuva, ela sequer tiraria. É o abrir a porta do carro e levar a um restaurante dos bons porque lá no fundo, bem no fundo, ao invés do romantismo pelo romantismo, este raro nos nossos tempos, talvez ela ceda às tentativas de coito ao fim da noite. É o corpo sarado e o erotismo que conquistam; afinal, diria o ditado já popular: amor que fica é o desse tipo. Amor pra quê? E não me cabe falar aqui, por falta de espaço ou precaução, dos quarentões twitteiros às margens de uma crise ainda maior — a do arrependimento por tanto tempo perdido com os milhares e milhares de tweets mais infantis que o desenho do Pingu — ou dos pré-candidatos que se aviltam em troca de votos. […] E esta é, por tudo e muito mais, uma dimensão de merda; é, infelizmente, a dimensão na qual vivo.

Nossa mente flutua. Somos, sabe-se lá como, o reflexo de nossas percepções. E nas dimensões que nós mesmos criamos, vivemos. A dimensão na qual vivo, eu disse, é podre, cheira a enxofre e está em crise. Adoeceu-me, inclusive, nos últimos dias. Daqui, meus caros, quero sair, mas daqui, porém, não vejo a luz no fim do túnel. Daqui não vejo a saída sequer por aquela famigerada fenda — decerto porque nunca se pôs como saída, de fato — a ruir entre as pedras gigantes depois de um abalo císmico. […] Estou aberto às dicas.

Por onde andas, Mestre dos Magos?