Emanuel

Não é comum, hoje em dia, que se coloque o nome ao próprio filho de Emanuel; é nome antigo, concordo, como os que denominaram crianças em 1920, hoje avós. Ainda assim, e mesmo com a possibilidade de que seja chamado de Mané pelos seus, meu filho levará o nome Emanuel. Emanuel Girarde, com algum outro sobrenome no meio. O motivo é nobre, amado filho — e agora, embora você ainda não exista, volto-me a ti pela primeira vez —: a origem de seu nome é hebraica e, quando traduzido, significa Deus conosco. Daí sua nobreza. E sendo assim, Emanuel, não nos importa, portanto, o que acham — e eu acho lindo; importa, sim, o seu significado. Emanuel. […] A refletir, decidi que o primeiro de meus textos destinado exclusivamente a ti visa lhe apontar alguns caminhos. Não que sejam os mais verdadeiros e consideráveis caminhos, mas talvez ainda válidos em sua geração, mesmo que tão tão distante.

Sobretudo, Emanuel, valorize a sua família e os seus amigos. Porque todo elemento que estiver num conjunto externo ao conjunto de seus amigos e de sua família, meu filho, não é elemento fundamental o suficiente. Aqui, enfatizo: quando eu digo sobretudo, digo porque a vida comumente nos apresenta — em frequência altíssima! — muitos atrativos aparentemente mais interessantes do que uma tarde em família ou uma conversa entre amigos. Então, abocanhados pela tentação, substituímos o fundamental pelo supérfluo. Somente para que melhor entenda, uma tarde em frente a um computador — ou qualquer que seja o nome do dispositivo que o conecta à internet —, algumas horas em frente a um videogame ou mesmo um bate-papo à toa com a menina que você tanto gosta, por exemplo, nunca serão suficientes para substituí-los à altura. Sobretudo, filho, valorize sua família e os seus amigos porque eles realmente estarão ao seu lado nos momentos em que mais necessitar, nas horas em que você mais precisar de uma mão forte para lhe ajudar a levantar, a dar uma sacudida e seguir em frente. Valorize-os porque eles te amam de verdade, sem quaisquer interesses. […] E se um dia, meu caro, você resolver constituir a própria família, saiba bem que deverá encarar tal sonho como algo sério, ou seja, algo que não deve servir de prenda, sob nenhuma hipótese, nos leilões à toa que são promovidos por aí. Isso significa que você não deve se empoleirar com qualquer bonitinha que lhe aparecer bem vestida, com o corpinho sarado, toda oferecida, a arrebitar o traseiro em sua direção. Não a sobreponha em sua escala de importância. Aqui, meu filho, assim como no apontamento anterior, é a sua futura família que deve estar em primeiro lugar na mente, não o status ou a beleza de sua mulher. Fuja, portanto, dos leilões de sonhos que provavelmente seus amigos promovem junto às mais bonitinhas de sua turma; ao invés disso, escolha uma mulher admirável que sonhe tão alto quanto você, abrace-a forte e siga com ela em frente, superando os obstáculos que defrontarem o relacionamento de vocês, dia após dia. […] Pratique esportes e torça para o São Paulo Futebol Clube, ainda que sua querida mãe torça para o Santos ou para o Corinthians. É que, caso você não o faça, perderá oportunidades de ir a estádios de futebol comigo. E eu posso lhe afirmar, pelas experiências que tive com seu avô, que gritar gol ao lado do pai é uma das sensações mais bacanas que existem. Além do mais, considerando o dia em que escrevo este texto, o tricolor paulista é o time mais vencedor do Brasil. […] Aprenda a gostar de ler e leia muito na adolescência. Se o fizer, praticamente excluirá de si a petulância típica dos adolescentes e instalará um catalisador em seu sistema mental, com o qual as coisas serão mais rápidas! […] Na dura caminhada, Emanuel, exceto no caso em que estiver numa improvável e remota era gerida por um sistema menos obsoleto que o capitalista, você precisará de dinheiro. Dinheiro para o cotidiano, dinheiro para se divertir, para fazer compras e para comprar seu primeiro um-ponto-zero e subsequentes carros, mas não só; principalmente, precisará de dinheiro para manter a guarida de sua família. Decerto você também chegará à faixa etária em que vislumbrará a aquisição de um carro esportivo, a mansão de seus sonhos ou mesmo na fase em que projetará uma conta bancária recheada, com sobras para investimentos. Sugiro, Emanuel, independente do tamanho de seus sonhos, que você faça boas escolhas profissionais e tenha o pé no chão para não se frustrar tanto. Por um lado, se optar por ser funcionário, siga à risca o protocolo do mercado e seja proativo, sempre estudando bastante e à frente de outros profissionais; por outro, se optar por empreender, prepare-se para sofrer com a falta de dinheiro e estrutura no início dos tempos, bem como para lidar com a pressão por resultados imediatos, que, justamente por serem imediatos, são praticamente impossíveis de se conquistar num só clique. Em relação ao dinheiro, meu filho, tenha muita paciência, pois o alcance da estabilidade na vida financeira acontece aos poucos, bem aos poucos, tijolo por tijolo. Esteja ciente, entretanto, que, apesar de sempre pressioná-lo para que cresça nesse sentido, eu sempre estarei ao seu lado nas épocas de vacas magras, exatamente como ao meu lado seus avós estiveram. […] No decorrer da vida, Emanuel, não guarde nenhum tipo de rancor. Afirmo-lhe com propriedade que rancor é o pior sentimento da face da Terra, um típico estraga-vidas. Assim, se porventura nós discutirmos, brigarmos e as cabeças pegarem fogo, façamos as pazes. Esqueçamos sem traumas a experiência ruim porque, afinal, nossa família será sempre maior. […] E, por fim, meu filho, prepare-se para os tempos em que nossos papeis naturalmente vão se inverter: eu cuidarei de ti até me tornar mais fraco e, então, será a sua hora de cuidar de mim e de sua querida mãe. Quando essa época chegar, acompanhe-nos, esteja ao nosso lado. Nós precisaremos.

Não que os caminhos sejam os mais consideráveis, querido filho. Não tenho dúvidas de que cada qual os próprios caminhos traça. Talvez estes aqui descritos sejam válidos não só para ti, mas também para mim. É que, hoje, os caminhos que por aqui sigo são por ti, por Sofia. São caminhos que traço somente para encontrá-los em breve, logo mais, para um forte abraço e por toda uma vida em família. Com sabedoria e junto a Deus.

Espero-te, filho.

Xilindró

 

 

De onde escrevo, sozinho observo. 18h30 de uma sexta-feira, segundo dia do mês de novembro, 2012, finados, e eu estou a aguardar uma amiga numa unidade brasileira da Starbucks — aquela famosa boutique de cafés norteamericana —, de onde, repito, sozinho observo. Noutro dia, também daqui, assim como agora, tive a clara impressão de que estamos presos. Com o perdão da demagogia, presos a nós mesmos. Daqui, de onde estou, já não tenho dúvidas de que, exceto por uma revolução no modo de pensar, o ser humano passou a ser prisioneiro de si; vive hoje como se o mundo girasse em torno de seu próprio eixo — ainda que, no peculiar caso, o tal eixo seja a própria cabeça, o diafragma, o bucho, a ponta do nariz ou mesmo a sola do pé. […] Parece-me, inclusive, que a justifcativa deste texto está mais na mensagem que pretende pôr à prova do que na efetiva preocupação que tenho com os desconhecidos que aqui comigo estão, fato que, por si, de certa forma já me insere ao contexto que estou prestes a descrever. Também não escrevo somente pelo incômodo, mas sobretudo pela vontade que tenho de simplesmente retratar uma condição histórica, quiçá a ser lida por alguém em época mais adiante, provavelmente em condições diferentes, sejam elas melhores ou piores, saber-se-á somente lá. A mensagem diz respeito às novas condições por meio das quais fomos reprogramados, por meio das quais voltamos ao xilindró.

Antes, há dois séculos, um tempo nem tão diferente. Dica de leitura, o livro 1808 retrata a vinda da corte real portuguesa ao Brasil e seus impactos no atual molde geopolítico do país, que certamente teria sido outro se D. João e o núcleo de sua família por aqui não tivessem estado ao longo de longos 13 anos. Longos, explico, porque, dizem, os anos entre 1808 e 1821 compuseram um dos períodos mais impressionantes da história brasileira. Por um lado, muito em função da abertura dos portos e da imposição de valores europeus à cultura brasileira, evoluímos na educação, na infraestrutura, nos trâmites do comércio e pudemos vivenciar um quê da liberdade que nos levou, um ano depois do retorno da bendita corte às suas terras, à independência de Portugal, em 1822; por outro, o período foi o berço da politicagem e do nepotismo no Brasil, da ideia de ociosidade no trabalho e da exploração ainda maior de negros desafortunados, escravizados à época, tidos como burros-de-carga. Presos. […] À luz daquela época, surgia a aristocracia no Brasil, potencializava-se a desigualdade social, a corrupção, a idolatria das sextas-feiras e o foco na individualização dos interesses.

Hoje. Liquidificadores produzindo frappuccinos, duas dezenas de notebooks abertos, papos do tipo conte-me-mais, altos tons de voz, tons de cinza, um muffin nojentamente mascado pelo homem-seguro-de-meia-idade, risadas forçadas ao fôlego da aceitabilidade social, cafés a $12,90, bolsas falsas e óculos-escuros comprados em seis vezes sem juros no Visa. Um bando longe de si. Aparentemente ideal, o ambiente aqui é, na verdade, bastante barulhento, caótico como os nossos ares, longe de ser agradável aos olhos de quem sobre ele reflete. Em altíssima resolução, é o retrato mais límpido possível de um quilombo contemporâneo, um novo Palmares concebido por modernos designers de interiores e aclimado com um ar engana-trouxa ao nível de agradáveis 22 Celsius. Nele, somos um bando de seres negros e brancos enfiados em roupas xadrez made in Brás devidamente engomadas e etiquetadas para justificar o elevado preço da vitrine e a percepção de valor claramente errônea por parte do consumidor; aqui, temos smartphones conectados 24/7 às tais redes que tanto nos distanciam, fios de cabelos crespos e alinhados temporariamente à moda de chapinhas baratas da 25 de Março, pois, espivetados, eles não resistem sequer a uma garoa ou a uma boa noite de sono; além, ainda estamos bezuntados em 500 ml de perfumes adocicados, com fragrâncias produzidas às centenas de toneladas nos laboratórios químicos não-sustentáveis que entulham as beiras de rios e rodovias por aí. 2012.

Bem verdade, nossa época é bem diferente em muitos aspectos, mas com condições essencialmente semelhantes às vividas no brasil-colônia. É que, de tempos para cá, aquela tal desigualdade social se consolidou e, com ela, também as novas sociedades geridas por um sistema operacional igualmente retrógrado, análogo ao que geria a escravatura. Antes, éramos escravos de outros; hoje, escravos de nossa própria mente, escravos das vontades que temos de conquistar os nossos — e somente nossos — objetivos, de suprir exclusivamente os nossos desejos. No máximo os de nossos mais próximos. […] De onde escrevo, por fim, sozinho observo: vejo um desfile de seres fortemente preocupados com a própria aparência, encucados com as coisas que os outros vão pensar. Um universo confuso, que não se decide. Aqui, é como se todos fôssemos sóis, com outros sóis girando ao redor do meu eixo, do eixo do outro. Um mundo que parece socialmente bacaninha, mas é fundamentalmente individual; que parece ideal, mas somente parece. E é neste contexto que hoje vivemos: somos os novos escravos, escravos de nós mesmos. Vivemos no mundo do cada um por si: afinal, quem de nós vai bem? Quem de nós vai mais longe? Eu! Eu! […] Somos burros-de-nossa-própria-carga. Somos, literalmente, meros indivíduos.

Onde estás, Isabel?

Muito mais além

 

 

Somente os homens de sorte são capazes de, numa noite clara,  encontrar um ponto a partir do qual seja possível enxergar o céu com clareza de detalhes. Não aquele pretume absoluto, mas o céu imenso, intenso, farto de estrelas. E mesmo com todo ele à frente, completo, há quem acredite que o céu tem fim, que pára numa parede, fica intransponível num limite sólido o suficiente para impedir que alguém dali passe. Mentira. A esses — os céticos — posso afirmar com certa segurança: o céu não tem limite. […] A evidência que comprova tal afirmação não está no que se diz por aí cientificamente. Muito pelo contrário: ela me apareceu num restaurante, no decorrer de uma conversa incrível. E o mais curioso: num restaurante sem vista para o céu.

Desde muito cedo, coitados, somos levados a acreditar que tudo tem limite: aprendemos na escola que o planeta nonde vivemos é cortado por trópicos imaginários e os países que o compõe, limitados por fronteiras também imaginárias. À medida que crescemos, somos moldados à luz das normas e dos diferentes costumes culturais. Respeitamos regras na família, criamos relações ciumentas do tipo isso-pode, isso-não-pode e ainda vivemos sob a égide dos alienantes códigos de conduta no trabalho. Em tudo há limite, por todos os lados: do crédito concedido pelos bancos às possibilidades de recordes no esporte olimpico; da capacidade produtiva à nossa mais vã paciência. [..] E mesmo quando nos estimulam a superar os limites, é preciso considerá-los para que haja a tal superação. É como se o mundo não funcionasse sem os limites.

Na prática, porém, não é bem assim: o mundo vive muito bem sem muitos deles, até porque todo limite tem seu contraponto desmoralizante. Para alguns, por exemplo, manter relações com o amor antigo é um fator limitador para que se conquiste um novo; para outros, contudo, abrir o coração ao novo é uma das formas de se desvencilhar do antigo. Mesmo a morte, vista como o mais tenebroso ponto final, pode ser encarada como limite da vida por muitos ou como ponto de partida de um novo ciclo por outros. Nas primeiras percepções, o limite; nas segundas, a impulsão. […] Em suma, limitar é ação mental.

Entendi, por fim, que muitos de nossos limites são frutos de crenças infundadas, ou seja, são limites imaginários. No fundo, nem tão fundo assim, nunca existiu um limite para o encontro de um novo amor, novas amizades, novas culturas e novos assuntos. Exceto pela crença infundada de que seguir em frente é, por si, um limite, nada nos impede de seguir em frente, viver novas experiências e, ao fim, rir do passado, seja ele bom ou ruim. […] Ontem, lá no restaurante, fui homem de sorte. Conectei-me a um ponto a partir do qual foi possível ver tudo de um modo diferente, sob outra ótica. Quebrou-se o limite. Foi como olhar para o céu e, por sorte, deparar-me com o imenso, o intenso, com a fartura de estrelas. Sem limite, sem fim. Tudo de novo.

Fui muito mais além.

A fábrica de giz

 

 

Cobrindo a rua sem saída, enterrados lado a lado, paralelepípedos. Decerto a aplicação de asfalto ali não se justificava pelo baixo movimento, decisão que perdura até hoje. Era a ruinha, um campo improvisado de futebol — e também das batalhas de pega-pega, esconde-esconde, etc. — no coração do bairro onde cresci. No chão, contávamos quatro pedregulhos ou pés, que enfileirados distanciavam um chinelo de outro, a medida do gol. Pela justiça, preferíamos os paralelepípedos aos pés, estes nem todos do mesmo tamanho. Bastavam, portanto, quatro chinelos, dois times de moleques e uma bola velha; quando muito, uma ou outra garota completavam a brincadeira. Por fim, por inteiros muitos dias dos derradeiros 80s e início dos 90, formávamos um bando de crianças pernas-de-pau — parece-me o coletivo mais justo — a gritar, cada qual na sua posição, atacante, goleador ou não; toda uma infância de bate-bola saudável e amizade.

Onde a ruinha não tinha fim, havia uma espécie de rotatória — um círculo de pedra no qual motoristas perdidos podiam manobrar para o retorno à avenida principal — e um muro bem alto que separava o campo de uma fábrica de giz praticamente desativada. Para lá, por sobre o tal muro, voavam as bolas dos que erravam um chute mais forte, ou pior, dos que as embicavam sem dó por pura falta de talento. E para lá não voaram poucas, que eram prontamente substituídas, ao menos até que um de nossos pais nos comprassem outra de capotão, por bolas malfeitas de papel, por outra brincadeira qualquer ou, principalmente quando os ponteiros beiravam as seis do fim da tarde, por um simples tchau, vou entrar, logo minha mãe me chama. Os anos se passavam e para lá, por sobre o muro, continuavam a voar as bolas que lá ficavam porque, à época já desativada, a fábrica de giz nem seguranças noturnos tinha mais, sequer os cães bravos típicos das placas de alerta. Lá, às escuras, as bolas de capotão e papel pereciam. […] Então, sem que eu pudesse conhecer algum trabalhador ou empresário dali, cresci. Ao longo de toda a minha adolescência havia um estigma de que a tal fábrica era fantasma. E bem que parecia. Foi somente quando eu já beirava os 30 que ela desapareceu definitivamente. A fábrica de giz tinha sido, enfim, comprada por uma construtora e seria varrida pelos braços de aço dos tratores. Saíam os gizes, entravam os prédios. Era o fim da esperança de resgatar ao menos uma de nossas bolas perdidas. Mais uma vez, como para sempre acontecerá, a história se alterava.

Há pouco, perplexo, passei a pé em frente ao local onde jaz a saudosa fábrica de giz. Enfincados no local já estão sete ou oito prédios residenciais onde morarão, em poucos meses, milhares de pessoas. Ali — afinal, em nossos tempos poucos investiriam num produto tão obsoleto —, nunca mais haverá uma fábrica de giz. Também, exceto em meus devaneios, não voltarei a ser criança. Porque, via de regra, as coisas mudam. Num dia, rua e futebol; noutro, mais adiante, trabalho e internet. Num dia, pais jovens e enérgicos; noutro, os mesmos, mas com cabelos brancos e carentes da ajuda dos filhos. Num dia, uma relação aparentemente eterna; noutro, outra relação ainda melhor para substituir a anterior. Num dia, aqui; noutro, como num lapso, a morte e a estadia não mais por aqui, mas acolá. […] Enfim, é preciso aceitar mudanças porque, via de regra, mudam a época, a cor das fotos, as pessoas ao redor, os amigos, o trabalho, a rotina, a elasticidade da pele, o jeito de pensar e agir, a configuração dos móveis ou a própria casa; mudam as cidades, as pessoas, as formas de se entreter, a comunicação, as brincadeiras, as crianças, muda a vida. Muda tudo, tudo muda, todo o tempo. […] Num dia, giz; noutro, um tipo de caneta com tinta apagável.

Apaguemos a lousa. Há sempre novos conteúdos.

Crise do entusiasmo

 

 

É como se a Terra, de uma hora para outra, tivesse se transformado no paraíso (?) — o próprio. De repente, de supetão, de bate-pronto, dezenas de caminhões passaram a descarregar, segundo a segundo, toneladas de mensagens de otimismo nas redes sociais, nos livros, na TV, nos discursos, n’todo lugar. São milhares e milhares que se dizem absolutamente crentes no poder divino, límpidas e leves como a água Bonafont. Uma filosofia do sabe-nada, dos versos e versões paraguayos de Drummond e Lispector. É um tal de superar dificuldades, do amor sobre todas as coisas, o amor sem falhas, da valorização da beleza interior, dos sorrisos-Colgate em ambientes perfeitos, da aclamação da leitura e da cultura, da fidelidade, do ser-diferente; um tal de defender a igualdade racial, proteger o meio ambiente e sustentá-lo como produto-fim da criação divina. Um arco-íris do existir que, ao invés de paraíso, mais se configura como uma gruta ou uma iguaria fétida coberta por um apanhado generoso de baboseiras, falsidades à toa e uma cereja paraguaya — daquelas que mais se parecem com uma gelatina — no topo.

A etimologia da palavra nos remete a um estado otimista do espírito: entusiasmo vem do grego e significa, literalmente, em Deus. Aqui, neste feio mundinho, vivemos a sua crise — a crise do entusiasmo —, uma resultante natural da característica mais visível em muitos dos seres que por aqui caminham: a incoerência. É que sob a máscara do spammer, o tal a nos enviar ininterruptamente toneladas de mensagens de otimismo, geralmente está uma pessoa incoerente e que não aplica em vida as palavras tão compartilhadas nos faces da vida. Não é raro identificar, por exemplo, um rancoroso — do tipo que não perdoa e carrega sentimentos de ódio por longos anos — apregoando o perdão e os votos de paz e amor eterno nas relações. Vejo uma ali aclamando a fidelidade, danadinha, ao mesmo tempo em que aguarda a viagem de negócios do marido para pular a cerca. Acolá, um interesseiro de primeira categoria envia mensagens em favor do verde, da Terra-de-meu-Deus, mas nem tanto; manda-nos, na verdade, muito mais em favor de que digitemos seu número e apertemos o botão verde, bem verdinho, o do confirma, à época das eleições. Defronte ao computador, uma senhorita envia aos nascidos no dia — porque, convenhamos, a ferramenta facilita — uma lista enorme de Parabéns! na base do control C + control V, muito mais com o intuito de manter a boa imagem do que para realmente parabenizá-los. Por aqui também não é raro identificar profissionais frustrados ou indivíduos depressivos que nas redes, nas fotos, nos discursos, perfumam-se como se em Beverly Hills ou em Chicago. Falso testemunho. Dizem, recomenda-se que nessas horas haja uma conversa profunda com Deus. Pois ao invés de fazê-lo, de fato e em silêncio, que tal um “Obrigado, Senhor!” em troca de alguns cliques-curtir? Acontece. E acontece muito mais.

Se por aqui tudo há, todo esse otimismo, por que continuamos em crise? Por que o tal otimismo não nos leva, de fato, às relações e aos atos de amor puro? Por que, sendo o mundo assim tão divino e com pessoas tão aparentemente belas, os relacionamentos não perduram — ou pior, quando perduram, seguem às trancas e barrancas? Por que muitos dentre os que falsamente creem — aqui classificados como spammers — comportam-se de modo tão diferente na vida real? Por que a beleza das fotos não reflete o que vemos no comportamento do dia-a-dia? Por que o mundo, mesmo o tão ilusoriamente belo, aparenta estar anos-luz distante dos ditames de Deus? Por que, sendo assim, o tal egoísmo ainda é tão presente? […] Onde estão os sorrisos-Colgate de verdade? Onde estão os ambientes perfeitos das fotos e das mensagens no Facebook? Onde estão os belos-por-dentro que tão valorizados são? Onde está o nó que desata o problema do racismo e da sustentabilidade no mundo? Enfim, onde estão os benditos livros com páginas encardidas de tanta leitura? Onde?

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