A racionalidade do fenômeno aleatório





Aprender, dia após dia, não é tarefa simples. Parte-se da premissa de que para aprender o indivíduo deve estar, sobretudo, aberto à aprendizagem. E, pense bem, aprender é tarefa nada fácil: exige respeito à informação alheia, paciência tartaruguística para ouvir e, nos casos em que processo social já nos calcificou alguns pontos de vista, também a maturidade para lidar com o bendito orgulho.

(…)

Muito embora eu seja (no bom sentido da expressão) bastante crítico, o boníssimo sistema de ensino pelo qual passei tinha um forte defeito: era engessante, de modo que pensar fora do quadrado, para mim, sempre foi difícil. Desprender-me foi como um parto, realmente consegui, mas ao longo de boa parte da experiência nesse mundinho eu pensei, veja só, que inteligente era o indivíduo repleto de habilidades linguística e matemática e que a aleatoriedade não apresentava padrões. Tudo corretice, caretice. Ou não.

Com um colega de trabalho, ou melhor, amigo em potencial, hoje reafirmei o que já estava claro: ser inteligente envolve quocientes emocionais, aquelas variáveis que certamente vão além do bem-entender matemática & línguas. Confesso, entretanto, que continuo refletindo sobre a hipótese defendida por ele de que é possível, por meio da análise racional de um fenômeno aleatório, criar certa ordem a partir do caos.

Eu explico.

A Teoria do Caos afirma que mesmo um sistema determinado por leis robustas pode apresentar grande sensibilidade a erros e, assim, acontecer ao acaso, de forma aleatória. Por outro lado, a mesma fundamentação diz que o comportamento casual (aleatório) de um sistema pode também ser governado por leis, fato que possibilita, inclusive, uma análise profunda levando-se em conta uma margem estatística de erros previsíveis. (…) É como se pudéssemos, por exemplo, estabelecer certos modelos matemáticos para acertar um joguinho (ou aumentar significativamente as chances) e enriquecer num sorteio da LotoMania, exatamente a proposta desse amigo.

Acho que o problema da universalidade de tal hipótese está, dentre outras, no amor.

Sob meu ponto de vista, o amor acontece por meio de um processo plenamente aleatório. A palavra aleatoriedade, inclusive, é comumente utilizada para expressar uma quebra de ordem estabelecida, fenômeno comum aos coraçõezinhos de quem ama. O amor é caótico e, diz minha opinião, não há leis que possam explicá-lo ao ponto de ser possível construir certos modelos racionais de previsibilidade. Também porque a não-aleatoriedade do amor, pense bem, tornaria possível a previsão de milhares de comportamentos e eventos futuros tais como a definição das características sociodemográficas da mulher amada, a identificação de tendências do indivíduo à separação ou ainda à opção pelo casamento em curto prazo. (…) Aleatório demais, imprevisível demais.

O amor, O aleatório, acontece ao acaso. Acontece quando a espinha gela, quando o desejo é de estar perto, caminhar no bosque ou simplesmente conversar durante horas e horas. O amor não se explica. Acontece quando a palavra não vem, mas está lá. Acontece quando, independente do modelo, não há dúvidas de que será eterno (…) na alegria, na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte — essa danada! — separe os pombinhos.

(…)

Aprender não é tarefa simples: exige respeito à informação alheia, paciência tartaruguística para ouvir e às vezes maturidade para lidar com o bendito orgulho.

Sobre o amor, como se vê, pouco aprendi. Mas vou procurar, eu vou até o fim.

Educação é diferente

A aluna, mochila nas costas e caderno sob o braço direito, esperava o pai, que chegou em poucos minutos e a recebeu. Tão logo adentrou o carro, passaram a conversar. Duas marchas depois, atravessavam rapidamente o cruzamento da Rua João Gonçalves com a Avenida Tiradentes, bem no centro de Guarulhos. Observei tudo enquanto ainda jogava papo fora, minutos antes de também partir, mas no outro lado da rua.

O pai recebeu a filha.

Vivenciar o processo educacional é uma experiência incrível. A Educação, diga-se de passagem, é diferente de quaisquer outros ramos de atividade; mexe com a construção social, com o desenvolvimento do ser humano. Trabalhar com o processo educacional, além, é entender que o negócio da Educação é educar, nada mais. O negócio da Educação, portanto, está em proporcionar experiências únicas, momentos inesquecíveis, aprendizado constante e, sobretudo, um legado para toda a vida.

O aluno não se esquece do respeito que o Professor demonstra quando, em sala, ocupa-se em explicar o aclamado conteúdo detalhadamente, chamando cada indivíduo pelo nome. O aluno, prezado leitor, não se esquece dos momentos em que ouve, lê, aprende, apreende e aplica. O aluno nunca mais se esquece dos melhores amigos da época em que estudava. E a aluna, mochila nas costas e caderno sob o braço direito, certamente também não se esquecerá dos tempos em que, acompanhada de seu pai, atravessava rapidamente o cruzamento da Rua João Gonçalves com a Avenida Tiradentes, bem no centro de Guarulhos.

O pai, com orgulho, recebeu a filha.
Educação é isso. O resto é resto (…) e existe para ser esquecido.

A questão da desigualdade entre mim e você




Não creio que desigualdade social seja um termo que represente a injustiça at all. Muito pelo contrário. Não acredito sequer que a desigualdade social seja fruto da injustiça, mas que existe justamente em decorrência da palavrinha que está estampada no outro lado da moeda — a justiça. Sob meu ponto de vista, a diferença entre um indivíduo e outro, entre mim e você e entre o mais e o menos abastado está originalmente na visão de mundo, na forma por meio da qual cada indivíduo enxerga e vivencia a realidade.

Imagine um jovem — o primeiro — de 19 anos. Tal pode imaginar que o trabalho nessa época lhe trará dinheiro, estabilidade, liberdade e prestígio. Então imagine outro jovem — o segundo — também de 19 anos. Por sua vez, pode imaginar que o trabalho deve lhe servir como uma espécie rara de catapulta capaz de levá-lo, sem a interferência de qualquer obstáculo, à realização de um sonho (que pode, inclusive, ser também o de conquistar “dinheiro, estabilidade, liberdade e prestígio”). (…) A diferença entre o primeiro e o segundo, muito embora tênue, talvez seja O exemplo a ser dado quando a questão polêmica da desigualdade estiver em pauta. (…) Em situações drásticas, o primeiro jovem culpa o trabalho; o segundo se culpa.

Quer entender? Pois bem.

Ao discutir sobre desigualdade, o primeiro jovem tem lócus externo de controle, ou seja, tende a se sentir prejudicado quando o trabalho não lhe oferece sequer o mínimo do que se espera; acha desigual a relação em que ele não tem e o outro jovem tem, e vice-versa. O segundo, porém, tem lócus interno de controle e se culpa quando em apuros; acredita que, quando não realiza o objetivo proposto, o problema está em si, não em outros. (…) Assim, enquanto o primeiro jovem lamenta a injusta desigualdade, o segundo jovem pensa, trabalha e realiza. A diferença está na visão de mundo, no ponto de vista.

A injusta (ou justa?) desigualdade só entra em pauta, por sinal, quando alguém se sente prejudicado. É desigualdade aqui, reivindicação acolá. Estafante. Por outro lado, pense bem, é justamente no trabalho que está a raíz de toda a desigualdade. (…) O primeiro jovem se sente prejudicado porque o trabalho nada lhe oferece. Passa, assim, a se sentir desmotivado, hostil em relação aos (sob seu ponto de vista) “culpados” e então passa também a produzir menos, a conquistar menos. Nesse sentido, nada de dinheiro, estabilidade, liberdade e prestígio à vista. Já o segundo atribui a si a culpa pela má condição. Passa, assim, a se motivar, a batalhar por melhorias e, então, passa também a produzir mais para se safar do problema. Por consequência disso, pipocam dinheiro, depois estabilidade, liberdade e, por fim, o prestígio.

Natural — para não dizer lógico — que a condição entre tais jovens seja desigual. O primeiro terá conquistado, no final das contas, muito menos que o segundo. E, convenhamos, é justo que seja assim. O primeiro viveu próximo de uma espécie de muro das lamentações; o segundo, simplesmente trabalhou. O menos abastado foi reclamildo, dependente, desmotivado. Já o mais abastado teve outra visão de mundo, realizou mais, foi proativo e menos cético. (…) Não me venha, portanto, com a ideia de que a desigualdade é fruto de injustiça. Não é. Se existe, leitor, desigualdade entre mim e você, ela existe porque alguém, num momento qualquer, enxergou o mundo de outra forma, culpou-se mais, motivou-se mais, trabalhou mais e, por tudo, acabou conquistando mais que o outro. Simples assim. Justo.

(…)

Algumas pessoas sonham com o sucesso, outras levantam cedo e batalham para alcancá-lo” – Aleksandar Mandic

Meu sonho sob o nome GQuest

A realização de uma visão de futuro, por si, já seria justificativa mais que plausível para o árduo trabalho de toda uma organização e o seu ingresso, por exemplo, em uma Incubadora de Empresas. Muito além do que se escreve num documento como o Business Plan, muito além, está o bendito lugar do cérebro de um empreendedor onde se armazena, sob a forma de energia talvez, a mais importante visão que um ser humano pode ter do futuro: o sonho. Assim como acontece com um bom software, que nada faz se não dispuser de um indivíduo capaz de manuseá-lo, um Business Plan nada seria se não representasse, sob a forma de um elaborado texto, o sonho de um empreendedor. Não são somente os resultados financeiros da organização, mas sobremaneira é o sonho – seja ele qual for – que move o indivíduo em direção a um ponto qualquer, a um lugar melhor e mais distante. É o sonho que proporciona ao empreendedor a possibilidade (muito maior, por sinal, quando em comparação às possibilidades dadas a qualquer outro tipo de pessoa), de destruir criativamente uma já estagnada situação ou ainda de aproveitar uma oportunidade, muitas vezes enxergada somente por ele. Comumente anos e mais anos se passam antes que o empreendedor intua sobre o momento ideal para que o tal sonho se torne realidade, mas tal momento, também como acontece com todos os outros cruciais momentos, sempre chega. E ali o empreendedor, enfim, vivencia o sonho. É a história do estudante que acorda cedo, vai à faculdade, forma-se administrador de empresas, continua estudando, torna-se professor, empreende enquanto pode e, ao longo de todos esses anos, vislumbra o dia em que a própria empresa, enfim, abrirá suas portas. Sou eu. É a GQuest. É além do Business Plan. É a realização de um sonho.

O ser humano mais estranho do mundo




Então aquela pessoa andrógina que mais se parecia com uma mulher bem estranha, decerto em meio a um cruzamento porque vendia, ali, seu corpo nada esguio em troca de 10 ou 15 reais a hora, mandou-me um beijo. Eu voltava para casa depois de um jantar com Diana e pensava, na ocasião, num plano para a finalização do business plan da GQuest, minha próxima empresa. Assustei-me com aquela cena profana, confesso, mas me assustaria mais ainda se passasse, como se houvesse tempo, a analisar cuidadosamente cada um dos seres humanos estranhos com os quais me deparo a cada dia, análise tal que indubitavelmente se aplicaria também a mim.

A andrógina usava calça e uma blusinha, ambas fabricadas com uma espécie de tecido brilhante, bem justas, tinha barriga sobressalente ao ponto em que uma cirurgia de redução de estômago cairia como uma luva, o rosto parecia repleto de produtos químicos plásticos injetados manualmente via seringa desesterilizada e o jeito de andar, coitada, transformava aquela estrutura óssea numa geringonça que, vista de longe, sem demagogia, muito se parecia com mais um automóvel aguardando o verde do sinaleiro. Lamentável. Estranho.

Aliás, quem disse que para ser estranho o indivíduo precisa se parecer com a tal andrógina? Bem como a muitos outros tipos, a situação lamentável se aplica também aos céticos, os seres (em minha opinião) mais estranhos do mundo.

Detesto gente cética. Detesto mesmo. Esse tipo teima em dizer, sem fundamento algum, seja o tal fundamento teórico ou não, que o que se espera não vai se concretizar; que o que se espera não será conforme as expectativas. Expressa-se de modo tão torto que, muitas vezes sem querer — afinal de contas, o ceticismo faz parte de sua realidade percebida — , o cético transmite uma estranheza como não se vê comumente por aí sequer em indivíduos anômalos. “Ah, não sei”, “Não”, “Acho que isso não dá certo”, “Sei lá, viu?”, “Pare de inventar, no Brasil essa ideia não funciona, não vinga”, … (…) Experimente analisar cuidadosamente cada um dos seres humanos estranhos com os quais se depara a cada dia, análise tal que indubitavelmente deve se aplicar também a mim, e verá o quanto você encontrará desse tipinho.

Com todo aquele volume a andrógina era tudo, menos cética. Otimista, estava à noite vagando pelas ruas, tentando vender aquela scania para o primeiro insano que aparecesse e apreciasse. Tentou-me, em vão, com um aceno. Haja otimismo, não? E de pensar que os céticos, dos playboys às patricinhas, estão por aí crendo que nada dá certo, que nada dará certo.