A fábrica de giz

 

 

Cobrindo a rua sem saída, enterrados lado a lado, paralelepípedos. Decerto a aplicação de asfalto ali não se justificava pelo baixo movimento, decisão que perdura até hoje. Era a ruinha, um campo improvisado de futebol — e também das batalhas de pega-pega, esconde-esconde, etc. — no coração do bairro onde cresci. No chão, contávamos quatro pedregulhos ou pés, que enfileirados distanciavam um chinelo de outro, a medida do gol. Pela justiça, preferíamos os paralelepípedos aos pés, estes nem todos do mesmo tamanho. Bastavam, portanto, quatro chinelos, dois times de moleques e uma bola velha; quando muito, uma ou outra garota completavam a brincadeira. Por fim, por inteiros muitos dias dos derradeiros 80s e início dos 90, formávamos um bando de crianças pernas-de-pau — parece-me o coletivo mais justo — a gritar, cada qual na sua posição, atacante, goleador ou não; toda uma infância de bate-bola saudável e amizade.

Onde a ruinha não tinha fim, havia uma espécie de rotatória — um círculo de pedra no qual motoristas perdidos podiam manobrar para o retorno à avenida principal — e um muro bem alto que separava o campo de uma fábrica de giz praticamente desativada. Para lá, por sobre o tal muro, voavam as bolas dos que erravam um chute mais forte, ou pior, dos que as embicavam sem dó por pura falta de talento. E para lá não voaram poucas, que eram prontamente substituídas, ao menos até que um de nossos pais nos comprassem outra de capotão, por bolas malfeitas de papel, por outra brincadeira qualquer ou, principalmente quando os ponteiros beiravam as seis do fim da tarde, por um simples tchau, vou entrar, logo minha mãe me chama. Os anos se passavam e para lá, por sobre o muro, continuavam a voar as bolas que lá ficavam porque, à época já desativada, a fábrica de giz nem seguranças noturnos tinha mais, sequer os cães bravos típicos das placas de alerta. Lá, às escuras, as bolas de capotão e papel pereciam. […] Então, sem que eu pudesse conhecer algum trabalhador ou empresário dali, cresci. Ao longo de toda a minha adolescência havia um estigma de que a tal fábrica era fantasma. E bem que parecia. Foi somente quando eu já beirava os 30 que ela desapareceu definitivamente. A fábrica de giz tinha sido, enfim, comprada por uma construtora e seria varrida pelos braços de aço dos tratores. Saíam os gizes, entravam os prédios. Era o fim da esperança de resgatar ao menos uma de nossas bolas perdidas. Mais uma vez, como para sempre acontecerá, a história se alterava.

Há pouco, perplexo, passei a pé em frente ao local onde jaz a saudosa fábrica de giz. Enfincados no local já estão sete ou oito prédios residenciais onde morarão, em poucos meses, milhares de pessoas. Ali — afinal, em nossos tempos poucos investiriam num produto tão obsoleto —, nunca mais haverá uma fábrica de giz. Também, exceto em meus devaneios, não voltarei a ser criança. Porque, via de regra, as coisas mudam. Num dia, rua e futebol; noutro, mais adiante, trabalho e internet. Num dia, pais jovens e enérgicos; noutro, os mesmos, mas com cabelos brancos e carentes da ajuda dos filhos. Num dia, uma relação aparentemente eterna; noutro, outra relação ainda melhor para substituir a anterior. Num dia, aqui; noutro, como num lapso, a morte e a estadia não mais por aqui, mas acolá. […] Enfim, é preciso aceitar mudanças porque, via de regra, mudam a época, a cor das fotos, as pessoas ao redor, os amigos, o trabalho, a rotina, a elasticidade da pele, o jeito de pensar e agir, a configuração dos móveis ou a própria casa; mudam as cidades, as pessoas, as formas de se entreter, a comunicação, as brincadeiras, as crianças, muda a vida. Muda tudo, tudo muda, todo o tempo. […] Num dia, giz; noutro, um tipo de caneta com tinta apagável.

Apaguemos a lousa. Há sempre novos conteúdos.

Sofia

 

 

Sofia Girarde. Ou Sofia Alguma-coisa Girarde. Sobretudo, Sofia. Metade disto é dela, para ela: minha filha. Ela não existe e há no mundo às centenas as pessoas que já me disseram ser idealismo demais; afinal, dizem, se pararmos para pensar, o amanhã na verdade não há. Ainda, concordo, realmente não há, digo o amanhã tampouco Sofia, mas há de existir, se Deus assim o fizer, o amanhã em que ela nascerá. E decerto, filha, — és esta a primeira oração escrita por mim a ti — será o dia mais feliz de minha vida.

Abre pensamento. Com um vestido daqueles que só as mães de bom gosto sabem comprar, branco nos detalhes, bem limpo e que deixa a criança bastante livre, a pequena criança anda pelo parque a brincar. Corre às custas do desespero da mãe. Filha! Pare de correr! Esbarra num, faz o ciclista desviar, segue correndo em direção ao lago enquanto o volume dos gritos da mãe diminuem gradativamente. Com cabelos escuros ondulados e menos esvoaçantes por conta de uma tiara, a maquiagem maleporcamente auto-aplicada, tímidas gotículas de suor sobre a testa e a feição típica das crianças felizes, ela se diverte. Sacode a água, assopra uma dente-de-leão — aquelas flores brancas repletas de sementes que voam  pelos ares —, arremessa pedras na placa de aço e enjoa da brincadeira. Corre para outras com a cabeça ali, não noutro lugar. Porque, para crianças, exceto pelo medo do escuro, do ficar-sozinho, das polícias e dos assustadores monstros do imaginário, as preocupações do mundo não as impedem de se divertir e viver bem à mais perfeita toa. Elas correm de modo inconsequente, brincam como em nenhuma outra época da vida; dançam, pulam, falam alto e pouco se importam com o teor das conversas, contanto que sejam verdadeiras. Têm a imaginação fértil, fantasiosa, mágica. Ufa! E depois de todo um dia, já cansada, a garotinha chega em casa, brinca mais um pouco com os pais, gargalha, depois chora, mas vai ao banho a contragosto. Ali, n’água, esquece e diverte-se mais um pouco; afinal, quem não se derreteria de tanto brincar numa dessas banheiras para criancinhas? Por fim, deita-se em roupas leves sob a penumbra de um quarto único, com o cheiro e brinquedos só dela. Dormiu a que vive no mundo das crianças e embeleza toda uma família. É protagonista, é filha, professora e mestre em fazer com que os adultos se embasbaquem de felicidade. É felizFecha pensamento.

Talvez, Sofia, este texto bobo, que reflete um pouco do que me vem à mente quando penso em ti, não refletirá o que tu serás quando estiver por aqui. Puro idealismo. Ou refletirá, sabe-se lá. É que, confesso, a cada vez que vejo uma pequena garota com feições como as minhas, penso em ti, em como podes ser quando nascer. […] Importante, porém, além de meus vãos idealismos, é que por você já estou por aqui há 31 anos, mais precisamente. Sim, estou neste mundo — que à sua época certamente será muito mais belo do que este no qual vivo — e tenho a certeza de que, aqui, brincaremos aos montes.

Espero-te, filha.

There Must Be An Angel

 

 

Não foi exatamente como entoava a já antiga e afeminada música do Eurythmics, mas acerca. Lá na essência, cá com meus botões, tudo bastante parecido. Foi como, diz a própria música, estar num quarto vazio e, de supetão, minutos antes de se lançar num oco interior, deparar-se por sorte — ou por obra divina, creio — com uma orquestra de anjos adentrando a porta a remexer, todos eles, o já quase enferrujado lado emocional dos lá trancafiados. Como se a tal voadeira de anjos nos servisse única e exclusivamente para reativar as emoções, os sentimentos, ao ponto de — quem diria? — enciumar até o duro lado racional. […] Nesta noite, certamente não por acaso, no meu quarto vazio adentrou somente um anjo ao invés de uma multidão deles. Uma, no feminino, mas já bastante suficiente. Dúbia, morena, beirando os 30, transparente na expressão e sólida no que dizia, sentou-se à minha frente sem asas, que, por aqui, nesse mundinho, foram substituídas, embora a substituta não a fizesse voar, por uma jaquetinha de couro indefectível, moderninha, com a cara de ser cara. Já diziam pelos 90, ♪ nesse mundinho fechado ela é incrível ♫. Era simples por um lado, azeda e alcoolicamente sonolenta pr’outro; tinha um lado zen típico dos anjos ao mesmo tempo em que lançava, sem titubear, olhares-43 típicos dos homens. E ela, digo a anja, era encantadora não somente pelo sorriso, pelo perfume ou pela beleza — desde a época da adolescência características nela peculiares —, mas sobretudo pela mensagem divina que trazia, típica dos anjos. Ali, a falar, recitou, como se não soubesse de onde a tal vinha, uma mensagem mágica e bem mais completa que a deixada pela música do Eurythmics. Foi mágica tamanha que, de tão bem feita, classificou-se como difícil-de-se-decifrar, difícil-de-se-digerir; foi tão completa que, como toda boa mensagem, preencheu um vazio. […] Afinal, imagino que sejam essas mesmas as cousas dos anjos: aparecem de repente, entram sem bater, abrem-nos o baú nonde se guardam as essências da vida, enfiam-nos baú abaixo uma mensagem divina, fecham o bendito e o legado fica lá, a sete-chaves. Acabam mexendo com nossa vida sem que percebamos, sem que eles mesmos percebam; de repente porque são bem pagos para isso ou porque Ele — e não me parece interessante desobedecê-lo! — simplesmente quis assim. […] Enfim, a anja que hoje sentou à minha frente não se encontra em qualquer lugar. É rara, encanta, faz as horas passarem às pressas. Fantasia-se de fisioterapeuta só para enganar, disso sei bem. Porque no fundo — nem tão fundo assim — ela senta e diz o que diz, d’um jeito que só ela sabe, porque a mensagem marca a vida, altera-nos quase que instantaneamente: em suma, peça paz a Deus e agradeça-O“. Hoje, além dos pedidos que me são necessários e as mensagens de gratidão que Lho devo, agradecerei também ao sopro que trouxe anjos ao meu quarto vazio. Divino sopro. Agradecerei em especial à ventania que me trouxe a tal anja azeda e sua jaquetinha de couro preto indefectível.

Must be talking to an angel

Caverna do Dragão

 

 

Embora, por pura preguiça, eu não consiga comprovar cientificamente, já não tenho dúvidas de que nossa mente flutua; não no ar, mas em dimensões, várias delas. Estou certo, inclusive, de que tais dimensões  são criadas e mantidas a partir da organização das centenas de percepções que temos sobre as coisas da vida — da crença em Deus, por exemplo, ao medo da mariposa negra, da percepção sobre o que é felicidade à decisão de dormir cedo ou tarde numa noite qualquer. Nosso corpo, portanto, é somente o reflexo das experiências que vivenciamos nas tais dimensões; somente reage às decisões que sozinhos tomamos, às percepções que temos guardadas nas diversas repartições encaixotadas por detrás dos olhos.

Hoje, segunda-feira, estou doente. Ontem estive, anteontem também, tanto ao ponto de não conseguir dormir e sobreviver às custas de comprimidos amargos, um punhado deles. Uma gripe forte, daquelas que, justamente por serem fortes, não se revelam com tanta frequência. Reflexo. É que, digo, a dimensão na qual vivo atualmente não é das mais brandas, e o meu corpo, provavelmente indisposto, talvez esteja simplesmente refletindo tal indisposição. […] Hoje, vivo numa dimensão em que a plena felicidade é tão utópica que beira o impossível. Indisposição. Nela, as pessoas são iguais, as tribos são iguais, os atos são iguais e o povo vive em crise; uma crise de identidade, de otimismo e benevolência fakes. Não que o ser-igual seja ruim, muito menos as terras em crise. É que, no fim das contas, hoje tudo é meio falso, fake. É um flood de mensagens otimistas sobre o amor, sobre o futuro, sobre a superação, o transpor-obstáculos e o arco-íris do existir. É o prostituir o Santo Nome em vão, ou pior, em imagens no Facebook. É o protocolo exagerado na relação entre pessoas e que as tornam supérfluas o suficiente para levar à discussão destrutiva quaisquer afirmações além-protocolo. É o pobre que se endivida para parecer mais rico; é o rico que desdenha ou se submete a situações ridículas e de extrema humildade para se parecer com o ainda mais rico ou bonito, que seja. São os óculos de Herchcovitch na face de quem não o teria; a foto com o cabelo bonito porque, depois do banho ou da repentina chuva, ela sequer tiraria. É o abrir a porta do carro e levar a um restaurante dos bons porque lá no fundo, bem no fundo, ao invés do romantismo pelo romantismo, este raro nos nossos tempos, talvez ela ceda às tentativas de coito ao fim da noite. É o corpo sarado e o erotismo que conquistam; afinal, diria o ditado já popular: amor que fica é o desse tipo. Amor pra quê? E não me cabe falar aqui, por falta de espaço ou precaução, dos quarentões twitteiros às margens de uma crise ainda maior — a do arrependimento por tanto tempo perdido com os milhares e milhares de tweets mais infantis que o desenho do Pingu — ou dos pré-candidatos que se aviltam em troca de votos. […] E esta é, por tudo e muito mais, uma dimensão de merda; é, infelizmente, a dimensão na qual vivo.

Nossa mente flutua. Somos, sabe-se lá como, o reflexo de nossas percepções. E nas dimensões que nós mesmos criamos, vivemos. A dimensão na qual vivo, eu disse, é podre, cheira a enxofre e está em crise. Adoeceu-me, inclusive, nos últimos dias. Daqui, meus caros, quero sair, mas daqui, porém, não vejo a luz no fim do túnel. Daqui não vejo a saída sequer por aquela famigerada fenda — decerto porque nunca se pôs como saída, de fato — a ruir entre as pedras gigantes depois de um abalo císmico. […] Estou aberto às dicas.

Por onde andas, Mestre dos Magos?

Lídia

 

 

Corcunda, ela subia a rua a pé numa roupa estampada, típica dos mais antigos, o cabelo branco como algodão doce, a bengala tocando o chão a cada segundo e a expressão de esforço no rosto, já levemente suado. A sombra das árvores bem que ajudavam a amenizar o ensolarado dia, mas a cena, ainda assim, era incomum; afinal, não mais se espera de uma senhora à beira dos 90 que saia de casa, suba num ônibus e vá ao centro da cidade para resolver problemas cotidianos. Surpreendia sobretudo o ritmo um-bengalinha-dois-um-bengalinha-dois incessante, de modo que me esforcei um pouco para alcançá-la. Do outro lado da rua, eu já havia reconhecido aquele jeito ímpar de andar. Era Lídia, minha tia-avó.

Um-bengalinha-dois. Então, de supetão, com um pequeno salto à frente e o coração na boca, foi-se o ritmo. Ela havia se assustado com minha abordagem — Oi, Tia! É que, embora ela tenha nascido no período pós-guerra, em 1922, à epoca da Semana de Arte Moderna, não me parece que a vida urbana da época era tão cruel como a de agora. Frágil, sem a força descomunal daquela jovem paranaense dos anos 20, hoje bem guardada somente na memória, é natural que se assuste. Olhou para mim, reconheceu-me, pousou as duas mãos brancas e enrugadas sobre meu rosto e beijou-me numa das bochechas. Oh, meu filho! Ali, enquanto de nós os perambulantes se desviavam, conversávamos. Nem havia tanto assunto assim, pois nossos encontros — graças a Deus — ainda são frequentes, mas quis saber o que fazia por ali. Não me lembro qual foi a resposta, tampouco me lembro dos assuntos que tratamos durante os dois ou três minutos que ali ficamos. Vê-la bem, saudável, falante: nada ali era mais interessante. […] Então, outro beijo depois, foi-se em frente. Um-bengalinha-dois. Olhei-a de costas, corcunda, indo em frente com sua bengalinha. Senti-me orgulhoso.

Tia Lídia é a velhinha que todo mundo quer ter como avó. Além do cabelinho branco e da bengalinha — o que, por si, costuma atrair os que respeitam e se aproximam dos bons velhinhos —, ela ainda gosta de bingo, baralho, pescaria e missa. É com frequência que vamos juntos a programas nos quais ela fica parada, geralmente sentadinha na cadeira mais confortável, a receber beijos e carinhos alheios. […] No bingo, nem é tão sortuda assim. Com a mania de entortar a boca a cada número não marcado, ela ganha muito pouco, faz questão de comprar as cartelas com as quais joga e se mostra bastante supersticiosa — costuma rabiscar o coringa, aquele elemento central do jogo que já vem marcado na cartela de números. No baralho, escopa de 15. Aliás, para quem não sabe, a escopa de 15 é um jogo de cartas que veio para o Brasil com os imigrantes italianos, lá no início do século XX. Só velhinhos jogam hoje em dia, e Tia Lídia é um deles. Dizem que ela rouba e, quando não ganha, reclama que houve roubo por parte do adversário. Rumores. Na pescaria, até que se dá bem. Veste uma roupa própria para se defender dos mosquitos, um chapelão no melhor estilo mexicano e põe-se a pescar, espetando sôfregas minhocas no anzol a cada peixe perdido, quase sempre por conta de não chegar a tempo de fisgar o danadinho. Não há notícias de que num lapso qualquer tenha confundido a bengala com a vara de pescar. Bom sinal. Na missa não falta. Aliás, não só não falta às missas, mas reza durante todo o tempo em que está livre. Já às 5 da manhã, à beira do quarto onde costuma dormir, ouve-se um bzzz! bzzz! constante. É Lídia rezando, crente em Deus como só ela.

Ao fim do texto, é exatamente com Deus que quero falar. […] Há pouco mais de um mês, saudável ao ponto de soprar com força a velinha 9 e a velinha 0, uma ao lado da outra, Tia Lídia completou 9 décadas. E eu realmente gostaria, Cara — com C maiúsculo —, que ela pudesse soprar três velinhas de uma só vez daqui 10 anos. Ela merece, nossa família merece e o mundo — já carente de pessoas como ela — também merece.

Pode ser?